“Estar disponível, corporalmente disponível” é muito fácil de dizer, de imaginar intelectualmente, mas não podemos imaginar intelectualmente, mas não podemos imaginar, enquanto não tentamos, até que ponto é possível fazê-lo. Por mais que “queira”, seu corpo resiste; você o sente rígido, desajeitado, imóvel em suas atitudes culturais de defesa; você se olha do exterior, você se acha pouco natural, você se julga, não pode se impedir de planejar suas atitudes, seus gestos, você tem medo do ridículo.
Você acompanha os outros de esguelha, olha se a estão olhando, você tem medo do julgamento deles... e, finalmente, vocês se inibem uns aos outros. Definitivamente, todos ficam se sentindo muito mal. Todas essas resistências nós a conhecemos, mas pouco a pouco, insensivelmente, elas foram esmorecendo; esquecemos os outros, esquecemos de nós mesmas, ousamos nos “deixar levar” por nossas atitudes naturais, sentimos o corpo se descontrair, os gestos ficarem mais fluidos, mais autênticos.
Menos preocupados conosco, com nosso corpo, ficamos muito mais disponíveis às crianças, mais aptas para perceber suas necessidades, a respondê-las com naturalidade e autenticidade.”
“Desapareceu nossa agitação. No começo fazíamos muitas coisas, animávamos, propúnhamos sem parar, novas atividades às crianças, sem deixar-lhes o tempo de criarem, elas mesmas, suas próprias atividades, de exprimirem numa brincadeira inventada por elas, o que tinham para exprimir. Nelas projetávamos nossos próprios desejos, nosso desejo de “dar”, que nós não tínhamos nenhuma disponibilidade de as “receber”, de compreender e de analisar o desejo delas.”
“Na realidade tínhamos medo do vazio, dos tempos mortos, não tínhamos confiança nas crianças (ou então tínhamos medo de que elas nos escapassem, de que não nos necessitassem?). De qualquer modo, nós nos damos conta agora, era nossa própria ansiedade que cobríamos com essa agitação permanente.”
Trechos extraídos do livro: O adulto diante da criança de 0 a 3 anos de Andre Lapierre e Anne Lapierre

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